Heart

 Sandra Hiromoto é uma das mais prolíficas artistas visuais do Sul do Brasil na atualidade. Diferentes trabalhos dela tem integrado mostras em seu país e no

exterior, inclusive no Japão. Unindo passado e presente, imagens carregadas de

conteúdos simbólicos, texturas, repetições formais, estêncil, pintura e graffiti,

Sandra cria universos visuais que dialogam com modos de viver nas metrópoles

sul-americanas.

A presente mostra individual, que a artista denominou de “Heart” (coração em

inglês), О composta por uma série de pinturas inspiradas pelas músicas apresentadas

por Fernanda Takai em seu show “Live”. Sandra compôs textos visuais a partir de

elementos presentes nas letras das músicas interpretadas pela cantora brasileira e

os mesclou com os componentes gráficos de seu universo próprio. Resultantes do

encontro da sensibilidade de duas artistas, as pinturas agora ofertadas à apreciação são registros de olhares pelo entorno, imersos nos mais diferentes sentimentos.

Importante assinalar que obras em exposição tem seu potencial emotivo ampliado

além desta mostra, pois tambОm integram o cenário do show que Fernanda realiza

em Toyohashi.

Rosemeire Odahara

Professora e Pesquisadora em História da Arte

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Objetos de Andersen

A representação da paisagem paranaense foi uma ação pioneira da pintura de Andersen. 
A pintura ao ar livre era um reflexo da atmosfera, da ação do corpo e do registro temporal que se
configuravam num lapso de sentido. Da pintura com tintas indústrias, retículas e grandes pinceladas, 
Hiromoto estrutura uma cena urbana, concentra-se nas recordações, nos objetos de estúdio e ensaia um vocabulário simbólico. O que se conforma é uma memória do pintor, 
dos gestos ousados e singelos, dos sons e dos balbucios. 
Hiromoto procura um passado remoto para tingir a
urbe, colorir e gratar os muros. As vagas lembranças são registros
da vida, do artista e fazem pulsar o coração da cidade.
Denise Bandeira
Maio de 2014

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Lugar InComum
...Sandra trabalha nas fronteiras, nos limites entre Artes e linguagens. Com formação em desenho industrial, em seus trabalhos ela se apropria dos elementos e técnicas usados tanto por pintores como por designers. Em suas obras as letras, palavras, imagens (por ela construídas ou por outros) e texturas são representadas por meio de técnicas artesanais e semi-industriais. As composições visuais que Sandra agora apresenta se relacionam com questões que mostrou em produções anteriores, e nestas como naquelas se observam detalhes, cantos, aspectos da vida privada representados por meio de materiais e técnicas que a sociedade atual relaciona com ações expressivas em espaços públicos. As representações de lugares in-comuns de Sandra são como que paredes “olhadas sem serem vistas”, sobre as quais a mente projeta um grupo aparentemente desconexo de coisas (cadeiras, luminárias, letras, texturas, palavras, diálogos...), mas que são interligadas pelo processo de registro mnemônico de fatos marcantes.

Rosemeire Odahara

Professora e Pesquisadora em História da Arte 
Professor and Researcher in Art History 
Extraído do catálogo da exposição "Lugar InComum" Mac/PR 2013

"O exercício do Olhar - The exercise of perception"
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Sandra Hiromoto promove o diálogo dos objetos domésticos, melhor, dos objetos cotidianos. Mas quem dialoga com eles? É a artista que conversa com sua pintura? Ou somos nós, os expectadores, que somos convidados a dialogar com os objetos e por extensão com a própria artista? Que segredos esses objetos querem compartilhar? Esses questionamentos perturbadores perpassam toda a obra de Sandra Hiromoto, seja pela escolha da sua temática, seja pela forma de abordagem estética. O que chama a atenção é o paradoxo entre a manipulação da fotográfica digital com as suas pinceladas vigorosas, expressivas, intuitivas. Essa inquietação é também no seu processo criativo, ela se utiliza da arte urbana e promove novos questionamentos ao mesclar a pintura de cavalete com a stencil art, apropriada da arte urbana. Criando com isso uma pintura hibrida onde a cor vibrante é uma cor provocativa.

Walkyria Novais
Artista plástica - artist Plastic

 

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UMA CONVERSA COM O ENTORNO


Este texto pretende dialogar com a obra de Sandra Hiromoto, particularmente com a série Óbvio Cotidiano, cujas trabalhos nasceram a partir de viagens que a artista realizou por grandes metrópoles como Berlim, Madri e Paris. O impacto causado por essas cidades sugeriram à artista que se debruçasse sobre tantas imagens, espaços e pessoas, e possibilitou lançar seu olhar atento a aspectos novos da paisagem, marco que sempre dá início ao seu processo artístico. O que surgiu após tal contato é uma obra pontuada por signos da cidade: pessoas, bicicletas, torres, tratores, etc. Surgiu, também, uma “conversa com o entorno”, segundo suas palavras. Nas paisagens urbanas de Hiromoto, porém, a cidade não aparece como cenário, mas como organismo vivo que nos desafia a experimentar sensações novas. Olhar a paisagem significa também vivê-la em sua totalidade. Sensação, imaginação e entendimento fundem-se para criar um novo espaço a partir daquele na qual a artista se inspirou. Neste caso, temos várias experiências sensoriais: a primeira (o olhar da artista sobre a paisagem), a segunda (a obra realizada a partir de sua intervenção sobre a paisagem retratada), a última, e talvez a mais importante, o olhar do espectador sobre uma paisagem que é reconhecível sem parecer uma “imitação” da paisagem real, o que seria impossível, mesmo que a artista assim o quisesse. Sua fatura utiliza recursos técnicos atuais, mas seu resultado é próximo dos grandes paisagistas. Hiromoto juntou a fotografia digital com os princípios da pintura. Seu vigor plástico é uma mistura do domínio gráfico apreendido durante sua vivência diária com o lápis e o papel, e de sua sensibilidade pictórica apreendida a partir do contato com as tintas. Será necessário retomar estes aspectos ao final. Desta forma, as milhares de fotografias brutas, realizadas pelo olhar atento da artista, sofreram interferências digitais e posteriormente foram impressas em telas e pintadas com tinta acrílica.
II 
A influência do artista pop sueco, naturalizado americano, Claes Oldenburg (1929) é assumida pela artista. O artista foi objeto de extensa pesquisa empreendida por Hiromoto e resultou numa importante monografia. Oldenburg trabalha com a idéia de “monumento”, próximo da idéia de objeto comum, usado, por exemplo, pela Pop Art. Mesmo sendo comuns, esses objetos guardam um grande fascínio, principalmente quando trabalhados pelas mãos do artista. Podemos aceitar o interesse de Hiromoto na obra de Oldenburg por causa da associação entre arte-cidade presente na obra do artista sueco. Esta associação fascinou Hiromoto, mas os resultados são diferentes. Segundo o historiador Giulio Carlo Argan, “com Oldenburg, desaparece qualquer vestígio de pintura, permanecem apenas as coisas-imagens, ampliadas e exageradas nas cores berrantes, intrometidas demais num espaço que parecem roubar à nossa existência” (Arte Moderna, p.577). Em Hiromoto os objetos são apenas o meio, a pintura é o fim. Não há a dissolução do objeto com um fim crítico, como em Oldenburg ou na Pop Art, mas a apreensão do objeto de forma afetuosa. A cidade, o homem e seu “contorno” estão no centro da obra de Hiromoto. Seu olhar é, antes de tudo, carinhoso. Não há a impiedosa crítica de Oldenburg, pois Hiromoto não deforma a paisagem, a torna, sim, mais intensa. Ambos, porém, parecem fascinados pelos objetos. 
III 
Traçando, portanto, um caminho próprio, Hiromoto une sua habilidade gráfica com um projeto artístico que se complementam. A artista uniu um fazer técnico que a tornou conhecida (o grafismo, a fotografia, o desenho) com um talento pictórico desenvolvido no decorrer dos anos. Sua obra é, assim, fruto de um repertório técnico (adquirido a partir de sua profissão de designer) com uma fatura pictórica que nunca foi relegada em função do trabalho gráfico. Ao unir estes dois aspectos, Hiromoto apresenta um trabalho artístico no qual formas contemporâneas fundem-se com um fazer também contemporâneo. Sempre atenta a novas tecnologias, Hiromoto não se furta em utilizá-las. Seu universo agrega o que há de mais avançado com uma pincelada muito bem visível. Uma pincelada, porém, como disse novamente Argan, pode nos dizer mais do que o objeto pintado. Eis o que disse textualmente Argan: “uma pincelada pode ser tão ou mais significativa do que a descrição de um objeto” (Clássico anticlássico, p. 17). O que pode ser um paradoxo, é uma das grandes qualidades da obra de Hiromoto. Esse equilíbrio entre uma fatura tradicional (o uso do pincel e da tinta) e uma fatura moderna (o uso da fotografia digital e do computador) transformam sua obra numa experiência única. Daí a atenção que essa obra desperta. 

João Coviello 
Artista plástico / Ensaísta /Mestre em Filosofia 

 

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... nos trabalhos da artista plástica Sandra Hiromoto é visível as diversas influências na sua produção: desde o stencil (tão presente no trabalho dos grafiteiros) até a tipografia (de sua formação como designer gráfica). A artista incorpora estes elementos no espaço pictórico, juntamente com a construção de um ambiente interno; nele, temos um primeiro plano, com a inserção de objetos do cotidiano e elementos gráficos emprestados da tipografia. Do ponto de vista poético, sugerimos uma presença marcada por uma ausência: a cadeira imaterializada, perpassa diálogos não manifestados. O segundo plano, pressupõe um lado de fora, ao vislumbrarmos a silhueta de um edifício ao fundo, o que sugere maior distanciamento com relação ao espaço mais intimista do primeiro plano. Todos os elementos pictóricos apontam para um esvaziamento de sentido, sugerindo um espaço que se constrói e se reconstrói a cada experiência estética com a obra.

Elisa Gunzi
Mestre em Poéticas Visuais - 

Doutora em Artes Visuais Coordinator/Plastic Artist

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Objetos e Afetos


Quais são os objetos de nosso afeto? Dentre tantos objetos no mundo, por que somente alguns chamam nossa atenção, extrapolam sua função cotidiana e vêm a habitar nosso imaginário e a instigar nossas memórias? Os objetos capazes de propiciar afeto são auráticos, pois conseguem integrar passado e presente como em um clarão que se projeta, inesperadamente, na nossa frente. Já não é mais somente o objeto que está implicado na visão, é também um mundo de significações que se abre a partir dele. Isso pode acontecer, eventualmente, com qualquer coisa, quer seja fabricada pelo homem, quer faça parte da natureza. Assim como na relação apresentada por Georges Didi-Huberman em O que vemos, o que nos olha, uma relação dialética onde o sentido é provocado pelo conjunto: é a interação que importa, isto é, se ela acontecer. Por outro lado, se não houver interação não há evento e continuamos na indiferença. Isso se passa o tempo inteiro, pois é assim que a visão atua: por exclusão. Temos que excluir certas coisas para podermos enxergar outras. Cada vez que lanço minha visão para algo, esse algo também me olha, posso estar ou não sensível a este olhar, assim como acontece com os encontros e desencontros entre as pessoas. No caso da pintura, a tela funciona como parênteses, uma saliência incomum na ordem das coisas. Meu olho se abre para a experiência de algo extraordinário: um evento está a acontecer e me tornei testemunha ocular dele. E ainda mais, com esta tela que está diante de mim, torno-me, então, parte dela. Posso narrar, posso contar o que se passa comigo e estarei, mesmo assim, falando sobre ela. A partir daí, os objetos escolhidos como atores se tornam também: tinta, pincelada, forma, cor, textura, movimento, corpo, pele, que se somam a todas as outras experiências memoráveis que tivermos. É justamente nesse ponto que se encontra a meu ver um dos principais sentidos colocados em jogo pelas pinturas nomeadas Objetos Afetivos, o de trazer a pintura com seus objetos e seus afetos, para muito próximo de nós, testemunhas do evento e, sussurrando em nosso ouvido, simplesmente pedir: veja!

Objetos e Afetos 
Adriane Hernandez